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sexta-feira, 14 de junho de 2013

CARA A CARA: A DESCOBERTA E A ABDICAÇÃO DE UMA CONSCIÊNCIA


Brad Fletcher (Gian Maria Volontè) interpreta um professor universitário de Boston que devido a uma doença pulmonar, tem de ir viver para o sudoeste americano. Acaba por se cruzar com Beau Bennet (Tomas Milian) e com o seu bando. Fascinado pelo seu modo de vida, Fletcher assume o comando do bando e lidera-o com esmerada crueldade.

Contudo, ao contrário do que indica a sinopse acima descrita, Cara a Cara (Faccia a Faccia) não é uma simples luta de galos por um poleiro, bem pelo contrário, o filme leva-nos a uma viagem intensa ao íntimo de dois homens completamente diferentes à partida. Serão assim tão diferentes?

Sollima rodeou-se de atores, que além de muito bons, eram confiáveis e que souberam interpretar magistralmente toda uma profunda transformação psicológica a que os personagens principais, Brad e Beau, são sujeitos. O filme encaminha-nos, principalmente, para uma viagem de transformações e confrontos. Assistimos à metamorfose de um afável e conceituado professor universitário, uma espécie de Dr. Jeckyll num Mr. Hyde que se deixa seduzir pelo fascínio da vida de fora-da-lei e pelo poder que esta faculta. Por outro lado, Um implacável fora-da-lei metamorfoseia-se de Mr. Hyde em Dr. Jeckyll, contudo, sem a transformação física que encontramos no romance do escocês Robert Louis Stevenson, o que nos levará a concluir que o mal e o bem não têm rosto, são duas faces da mesma moeda e que a personalidade de alguém poderá mudar conforme as circunstâncias e o meio que o rodeia. Neste cenário, enquanto Beauregard Bennett descobre uma consciência, Brad Fletcher abdica da sua.
Filme de confrontos por excelência, podemos testemunhar uns quantos neste filme. O bem contra o mal, a civilização culta contra o oeste selvagem inculto, a sabedoria puramente académica contra a sabedoria empírica. Brad Fletcher crê mesmo que a sua inteligência superior tornará o bando, que vive numa espécie de comuna chamada “Puerta de Sol” (um piscar de olhos de Sollima à alegoria política), insuperável.

Sollima apresenta-nos um terceiro personagem que terá uma importância fulcral no enredo. Charley Siringo, interpretado por William Berger, um agente da Pinkerton que se infiltra no bando e assiste a todas estas transformações e que, após desfigurar com três tiros no rosto um bandido com a compleição semelhante a Beau, liberta-o e diz-lhe:
“- A Lei ficará satisfeita com um falso Beauregard Bennet. De qualquer maneira, o verdadeiro já não existe.”
Cara a Cara, apesar de toda esta intensidade psicológica, mantém todas as características de um bom western-spaghetti, a música fenomenal de Ennio Morricone, tiroteios bem encenados, uma tortura com requintes de malvadez, a ausência total de heróis e, claro, as maravilhosas paisagens áridas de Almeria.
Contudo, apesar de ser um dos expoentes do género, Cara a Cara só estreou em Portugal em 28 de Novembro de 1980, no Cinema Roxy, em Lisboa. Passou despercebido e, a título de curiosidade, transcrevo uma nota crítica, não assinada, publicada na época no B.C. (Boletim Cinematográfico) n.º 1560:

“Nota Crítica: O filme segue o protótipo inferior do “western-spaghetti”, sendo as figuras da acção manufacturadas de modo a enquadrarem-se num enredo cuja simplicidade atinge a raíz do ingénuo.
Gian Maria Volontè, hoje um actor consagrado, passava já uma fase da sua carreira pouco compatível com a forma como é tipificado a ponto de não poder valorizar um argumento que carece de uma sólida base narrativa.
Nada explica que um tão velho filme sem qualidade seja agora estreado.”

Faltam-me os adjetivos para caraterizar esta “nota crítica”. Apostaria que quem a escreveu nunca viu o filme.

António Furtado da Rosa
 
O DUELO:
 
TRAILER:
 
 

sábado, 1 de junho de 2013

PEDE PERDÃO A DEUS: O DURO CAMINHO DA VINGANÇA



Chiedi Perdono a Dio... Non a Me
O argumento é simples: Matam a família durante a sua ausência e Cjamango (Giorgio Ardisson) enceta uma vingança implacável sem concessões ou qualquer piedade, ajudado pelo interesseiro Barrica (Pedro sanchez), que viu o massacre, e que procura tirar proveito da situação cobrando os prémios oferecidos pelas cabeças dos assassinos. Para compor o ramalhete Cjamango está apaixonado, e é correspondido, por Virginia Stuart que é filha do seu pior inimigo…

 Baseando a sua intensidade dramática mais nas imagens de violência do que no desenvolvimento das situações, Pede Perdão a Deus não perde qualquer mérito por isto, bem pelo contrário, e constitui prova de que um orçamento minúsculo e um argumento parcimonioso podem gerar um filme francamente interessante e com um ritmo alucinante e ação trepidante. Cjamango não é, contudo, o anti-herói típico do género, não é a ganância que o move, mas sim a sede de vingança, pela qual está disposto a renegar tudo, até o amor, e transforma-se num lacónico anjo vingador e exterminador. Cjamango é bem interpretado pelo sempre fiável Giorgio Ardisson, ator que interpretou apenas cinco westerns, mas sempre de forma convincente, e que se notabilizou sobretudo em filmes de espionagem nos quais interpretava o Agente 3S3.
O filme conta também com nomes conhecidos do género como Anthony Ghidra (Balada para um Pistoleiro), Peter Martell (Ringo, o Cavaleiro solitário) ou Pedro Sanchez (Ignazio Spella) presença constante nos westerns de Edoardo Mulargia. Cristina Iosani interpreta aqui o seu papel mais importante na sua fugaz carreira no cinema (fez 7 filmes, 5 foram westerns) e é convincente no papel da infeliz Virginia. Fica a ideia que poderia ter ido mais além na carreira.

A realização, tal como o argumento e produção, esteve a cargo do ator e argumentista Vincenzo Musolino que aqui fez a sua estreia nas lides da realização. Realizaria mais um filme, Quintana, antes de falecer prematuramente em 1969 com 39 anos. Deixa-nos como legado esta pequena pérola para deleite dos admiradores do género ou daqueles que gostam de um bom filme de ação.

No entanto, este filme acaba por ter outra curiosidade. Na edição DVD que adquiri, da Sony italiana, edição muito razoável mas sem extras e com áudio em italiano, o filme começa logo com o genérico inicial. Quase por acaso, encontrei uma versão de um raríssimo VHS italiano que apresenta este filme com um prólogo e um epílogo nos quais Cjamango, agora um homem velho, tenta convencer um jovem mexicano, cujos pais foram assassinados, sobre a inutilidade da vingança. Legendei-os e apresento-os agora aqui:

                                                                              Prólogo:
 
Epílogo:
 
Pede Perdão a Deus...

sábado, 9 de fevereiro de 2013

A MAGIA DE RINGO - O GRANDE CINEMA DAS PEQUENAS COMUNIDADES



O Regresso de Ringo - 1965
A MAGIA DE RINGO

de

António Furtado da Rosa

Numa noite agreste de janeiro, o vento gélido fustigava, inclemente, os rostos curtidos e enrugados dos dois velhos pescadores. Todavia, esse facto não os demovia, e dirigiam-se ao Cine Teatro Açor para assistirem a mais uma “fita”, como diziam, algo que faziam frequentemente e quase religiosamente. Há muito que o Ti Manuel e o Ti João se tinham rendido à fantasia do Cinema, aos seus heróis e aos seus vilões, aos seus dramas e às suas comédias, aos seus encantos e aos seus desencantos. O Cinema para eles era, sobretudo, um escape às duras fainas numa luta contínua contra o Atlântico, por vezes benevolente e generoso, mas muitas vezes duro e implacável.

Depois de comprarem o bilhete, sentaram-se sensivelmente a meio da plateia e ajustaram-se, o melhor que eles puderam, nas cadeiras de madeira. À sua volta, os mais jovens esperavam com notória agitação o início do filme, pois tratava-se do último filme de “Gringo”, assim era conhecido a estrela do western italiano Giuliano Gemma, ator que levava jovens e menos jovens em catadupa às salas de cinema pelo mundo fora. O Velho Manuel, que tal como o seu velho amigo João, não sabia ler, já tinha visto os cartazes e reconhecido o herói da “fita”, mas não sabia o título.

- Sabes o nome do filme, João?

- Não. – Respondeu o João.

João virou-se para a fila de trás e perguntou a um jovem que roía uma fava torrada com determinação:

- Ó rapaz, como se chama o filme?

- O “Regresso de Ringo”. – Respondeu o rapaz rapidamente com a fava quase a saltar-lhe da boca.

Subitamente ouviu-se uma campainha e algumas luzes apagaram-se, a excitação aumentou, ia dar-se início à magia…

Terminado o genérico inicial, Gemma (Ringo) aparece no ecrã, e logo se deu a primeira explosão de alegria a compasso de algumas palmas…

- Ele está louro desta vez. - Murmurou o Manuel

- Não faz mal. Logo que ele dê umas punhadas…

Poucos minutos depois Ringo disparava e matava dois mexicanos com ar suspeito, para gáudio da plateia.

- Começa bem. – Comentou o João.

Os minutos passavam enquanto Manuel e João, incapazes de lerem as legendas, tentavam perceber o enredo entre lutas e tiroteios. Os bons e os maus já estavam bem identificados. O filme era um western italiano vagamente baseado na “Odisseia” de Homero. Ringo era uma espécie de Ulisses e quando regressa da Guerra da Secessão, encontra a sua mulher, Hally (Penélope), subjugada ao domínio de Paco Fuentes, o chefe dos bandidos. Manuel, tentando perceber o enredo lá perguntou ao amigo:

- Afinal, a sujeita é irmã dele ou a mulher?

João encolheu os ombros e redarguiu:

- Acho que é a mulher.

- O sujeito meteu-se com a mulher do outro? Isso não é pecado? Grande pulha.

- Só se o marido descobre.

Cine Teatro Açor (Vila de Capelas)
Riram-se baixinho, enquanto o herói mastigava um pedaço de carne levantado do chão. O vilão cometia a suprema heresia de humilhar o herói. Os espetadores, em plena empatia com o herói, desejavam que este respondesse na mesma moeda, mas ainda era cedo, o herói teria passar ainda mais umas provações antes de retaliar e lá seguia em frente sem escutar os apelos da plateia.

- João, sabes o que eu fazia àquele bandido?

- O quê?

- Arrancava-lhe as bolas com um arpão!

- E era bem feito. Mas já não podes com um arpão, homem, já mal podes com um facão de matar porcos. Um arpão… tu tens cada uma…

- Ainda sou muito homem!

- Ainda bem. És feio como um bode, se fosses mulher era de fugir.

As filas mais próximas, à frente e atrás, reclamaram ruidosamente e os dois velhos lá se calaram.

A magia continuou, seguindo as peripécias do herói. Às tantas Ringo é sepultado, com honras militares e tudo, graças a um plano malévolo arquitetado pelo vilão para poder casar com a mulher de Ringo.

- Manuel, quem foi que morreu, afinal?

- Sei lá. Espera aí.

João virou-se novamente para o rapaz da fila de trás, que continuava a roer uma fava.

- Quem foi que morreu?

- Ti João, eu penso que foi… eu não sei.

- Não sabes? Não sabes ler?

- Pouco. Nunca atinei na escola. Tenho a cabeça mais dura que uma pedra.

- Bom, há de se ver.

Entretanto, alguém, junto ao roedor de favas, fez-se ouvir:

- É o gringo que está a ser enterrado.

- O quê? – Sobressaltou-se o velho João – Pensas que sou tolo, rapaz? Ele está ali e ao mesmo tempo está a ser enterrado? Outro que não sabe ler.
Entretanto voltaram os protestos a pedir silêncio enquanto o roedor de favas quase sufocava, engolira a fava quase inteira. Nada que umas valentes pancadas nas costas do vizinho do lado não resolveram rapidamente. A fava saltou que nem um bólide da boca do desgraçado. Mas não desistiu, prontamente tirou mais uma fava do saco, descascou-a e atirou-a para dentro da boca com o olhar fixo no ecrã. O filme continuava e Ringo, por obra e graça do argumento, estava agora no quarto da filha e é surpreendido pela mulher que acaba por o reconhecer, apesar de disfarçado, ao som de uma bela melodia do maestro Ennio Morricone, numa cena plena de romantismo e drama e filmada com esmero por Duccio Tessari num jogo de sombras fabuloso. Se calhar, gostou tanto desta cena que acabou por casar com Lorella de Luca, a atriz que interpreta Hally. Até os corações dos dois velhos pescadores vacilaram. O silêncio era profundo. A empatia entre o herói e os espetadores era agora mais forte do que nunca. Mas ainda faltavam alguns minutos. Ringo contra-ataca e lutando com denodo, reconquista tudo o que lhe pertencia para satisfação geral. Os maus foram punidos e os bons recompensados. As Luzes acenderam-se, debaixo de aplausos. Era assim vivido e celebrado o cinema nos anos 70 do século passado, no cinema da minha terra. Nos cinemas de tantas terras e de tantas gentes longe dos grandes centros urbanos e elitistas. No fundo, a maioria de nós tem um “Cinema Paraíso” como recordação, o meu chama-se Cine Teatro Açor na Vila que me viu nascer: Vila de Capelas.

O Ti Manuel e o Ti João saíram do cinema em silêncio a caminho de casa, em contraste com os mais jovens que ainda vibravam com as peripécias do filme, para eles, a magia seria substituída pelas agruras da vida real, uma vida dura. Mas durante algum tempo, sentiram-se heróis de uma história que também fora deles…
                                                              


                                                              
Trailer:



segunda-feira, 1 de outubro de 2012

GiULIANO GEMMA - O GRINGO QUE NÃO PERDOA

Longe das Parangonas das revistas da especialidade, visto até como cinema menor por determinada crítica que nunca entendeu a essência real do Cinema Popular, este gerou nos anos 1960 uma estrela que todos aqueles da minha geração que deambulavam pelos cinemas nas décadas de 70 e 80 do século passado, reconhecem prontamente: Giuliano Gemma, também conhecido como Montgomery Wood, em apenas dois filmes e a contragosto, Ringo ou simplesmente Gringo.
                Nascido em Roma a 2 de Setembro de 1938, completou recentemente 74 anos, cresceu contudo em Reggio Emilia no norte de Itália. Giuliano iniciou-se no cinema como duplo e conseguiu o seu primeiro grande papel em 1962 pela mão de Duccio Tessari em "Arrivano I Titani". Depois de alguns filmes de aventuras que o tornaram conhecido ao lado de Richard Harrison, “O Lobo Vermelho” e “Os Dois Gladiadores” e Mark Forest, “Hércules contra os Filhos do Sol” e o ”Os Libertadores”, em 1965 Duccio Tessari chama-o para protagonizar dois westerns que seriam um imenso êxito, e que o levariam ao estrelato: “Uma Pistola Para Ringo” e o “O Regresso de Ringo”, tornando-o uma das faces mais conhecidas do género, protagonizando êxitos consecutivos como “Um Dólar Furado”, “Adeus Gringo”, “Arizona Colt”, “Os Longos Dias da Vingança” ou “Gigantes em Duelo” onde contracena com Lee Van Cleef num dos melhores westerns italianos.
                Quando o Western Spaghetti já apresentava claros sinais de decadência, interpretou e abrilhantou dois dos mais belos westerns italianos crepusculares, juntamente com “Keoma” com Franco Nero, “Chamavam-lhe Califórnia” de 1977 e “A Sela de Prata” de 1978 e em 1985 foi o rosto do famoso personagem da banda Desenhada Tex Willer, criado por Giovanni Luigi Bonelli,  no filme “Tex, o Pistoleiro”.
                Ouçamos Giuliano Gemma na primeira pessoa, numa entrevista incluída no lançamento do DVD “Day of Anger” (Gigantes em Duelo) e que aqui apresentamos, legendada em português, com a devida e amável autorização de Eric Maché e Ally Lamaj da Wild East Productions.     



© Copyright Wild East Productions
 
I would like to thank Eric Maché and Ally Lamaj, from
 Wild East Productions, for allowing the publication of this interview





quarta-feira, 5 de setembro de 2012

PIERRE BRICE - O ETERNO WINNETOU

A 6 de fevereiro de 1929 nascia em Brest, na região francesa da Bretanha, no seio de uma família aristocrata, Pierre-Louis Le Bris, que ficaria famoso no mundo do cinema como Winnetou, Chefe dos Apaches Mescalero, personagem nascido da imaginação prolífica de Karl May. Brice interpretou Winnetou em onze filmes juntamente com Lex Barker (em 7 filmes como Old Shatterhand), Stewart Granger (em 3 filmes como Old Surehand) e Rod Cameron (num filme como Old Firehand). Repetiu a personagem em duas séries televisivas, em 1979 e 1997, que contudo não foram baseadas na obra de Karl May. Apesar de participar em inúmeros filmes e séries televisivas, Pierre Brice será sempre recordado como o Eterno Winnetou.

A propósito do festival de filmes baseados na obra de Karl May a 24 de Março de 2012, no Cinema Babylon em Belim, Christian Schroeder entrevistou Pierre Brice, entrevista que traduzi e aqui reproduzo, com a devida deferência:
Christian Schroeder: Sr. Brice, conhecia Karl May, quando lhe ofereceram em 1962 o seu primeiro grande papel como Winnetou?
Pierre Brice: Não, nunca tinha ouvido falar de Karl May. Em França, ele era desconhecido. Líamos Alexandre Dumas e Jules Verne.  Por isso, não estava particularmente interessado em aceitar a oferta. O papel de Old Shatterhand parecia-me muito mais interessante. Mas o meu amigo e também meu agente, finalmente convenceu-me a aceitar o papel.

CS: Qual foi o primeiro livro de Karl May que leu?

PB: Penso que foi “O Tesouro do Lago da Prata”. Mais tarde li os outros livros de Winnetou, mas não era fácil obter traduções francesas.

CS: Que achou deles?

PB: Gostei do facto de Karl May tentar transmitir valores. Winnetou lutou pela paz, pela liberdade e pelo respeito aos direitos humanos, tal como eu.

CS: Esteve preso à figura do chefe apache durante cinquenta anos. Até chamou à sua autobiografia “Winnetou e Eu”. Nunca se fartou de Winnetou?

Pierre Brice
PB: Não, deveria ficar farto porquê? Todos ao atores querem ter sucesso – e eu tive um sucesso enorme com Winnetou. Ainda tenho
os meus admiradores que são fiéis. Recebo tantas cartas e emails, enviados por jovens e crianças que conhecem os filmes de Karl May. Winnetou influenciou, sem dúvida, a minha vida. Antes de Winnetou interpretei vilões e assassinos que foram esquecidos após as exibições no cinema. Tinha acabado de iniciar a minha carreira em Itália e fui escolhido pela imprensa como o melhor ator do ano. Winnetou permitiu-me muitas coisas. O Comboio de Ajuda Alimentar de Pierre Brice em 1995, por exemplo. Só porque as pessoas estavam familiarizadas com Winnetou, fui capaz de angariar dois milhões de Marcos, para ajudar as pessoas, especialmente crianças na zona de guerra da antiga Jugoslávia.

CS: Karl May morreu há 100 anos. Ele foi um dos mais prolíficos e bem-sucedidos escritores da língua alemã, mas também um burlão e um condenado. Que imagem tem dele?

PB: Para mim, Karl May é um sonhador, tal como aqueles que devoraram os seus livros. Infelizmente, hoje em dia, é pouco lido pelos jovens. É uma pena, porque não sabem nada sobre os valores que distinguem os personagens de Karl May.

CS: May só viajou para os Estados Unidos em 1908, como turista, muito tempo após escrever “Winnetou”. Nunca conheceu Apaches. As suas histórias eram sobretudo fruto de lugares comuns e da sua imaginação?

PB: Está patente nos seus livros, pelo menos nas suas novelas de Winnetou, que não escrevia guias turísticos, mas contava histórias. O Oeste Selvagem oferece o cenário, mas o conteúdo é importante. Mais: Você mesmo disse que ele é um dos escritores mais bem-sucedidos da Alemanha. Na altura, não pareceu incomodar os leitores o facto de ele não conhecer a América quando escreveu os livros. Também não me incomoda.

CS: Karl May afirmou: “Sou realmente Old Shatterhand, e vi tudo.” Isto é ridículo ou audacioso?

PB: As pessoas que o conheciam sabiam que isto não era verdade. Ele era bastante pequeno e magro e fazer-se passar por Old Shatterhand era provavelmente ridículo. Mas ele não prejudicou ninguém, por isso não o descreveria como audacioso. Ele simplesmente tinha demasiada imaginação, o que não é desgraça nenhuma.


Trailer do filme "O Tesouro do Lago da Prata"
1962



Excerto do filme "Winnetou - Revolta dos Apaches"
1963







segunda-feira, 27 de agosto de 2012

JOHN WAYNE EM SÃO MIGUEL AÇORES - JUNHO 1963




John Wayne à saída do Teatro Micaelense,
Ponta Delgada 1963
[Foto do espólio da família Santos Figueira]

No dia 23 de Junho de 1963, pelas 20h20, atracava no então denominado Molhe Salazar em Ponta Delgada, um iate luxuoso com 288 toneladas e com 12 tripulantes chamado Wild Goose (Ganso Selvagem), cujo dono era a eterna estrela internacional do cinema, John Wayne.


                Foi o início de uma visita de quatro dias à nossa ilha, John Wayne e os amigos, a propósito desta visita, declararam que fora a leitura do livro do conhecido escritor americano de viagens e especialista em turismo Sidney Clark, “All the Best In Spain and Portugal” que os entusiasmara a incluir São Miguel no seu itinerário que tinha como destino final Espanha, onde Wayne iria filmar “O Mundo do Circo” com Rita Hayworth e Claudia Cardinale.



Filme "O Mundo do Circo" de 1964

                Durante a sua estadia, Marion Robert Morrison, nome de nascença de John Wayne (1907-1979), distribuiu simpatia à sua volta e não se coibiu de se juntar às verbenas de São Pedro no Relvão, onde dançou ao som dos ritmos da Orquestra de Teófilo Frazão. Visitou os principais pontos turísticos da ilha, nomeadamente as Sete Cidades, acompanhado por Victor Cruz, e as Furnas, a convite do cônsul americano de então, o Sr. William G. Keen.

                Também na companhia de Victor Cruz e do seu amigo e conceituado argumentista James Edward Grant, autor de vários filmes de Wayne – “Hondo”, “Inferno nas Alturas”, “Os Comancheros”, entre outros - visitou o Teatro Micaelense, onde foi recebido pelo Sr. Santos Figueira, Secretário da Sociedade Teatro Micaelense. Wayne e Grant assinaram o Livro de Ouro do Teatro. Na ocasião, James Edward Grant enfatizou que se sentia orgulhoso por “Álamo”, filme que escrevera, ter sido projetado numa sala tão categorizada. Realce-se que “Álamo” foi interpretado e realizado por John Wayne.

                Num serão em sua honra no Solar da Graça, John Wayne teve a oportunidade de conhecer o folclore micaelense através de uma atuação do Grupo Folclore de São Miguel, mas a noite seria longa dançando-se até de madrugada, animada pela música da Orquestra de Teófilo Frazão, que na ocasião, ofereceu a John Wayne uma composição da sua autoria chamada “Wild Goose”, precisamente o nome do iate do ator, cortesia que cativou sobremaneira John Wayne.

John Wayne ao leme do "Wild Goose"
                Hospedado no Hotel Infante durante a sua estadia em São Miguel, John Wayne deixou um rasto de simpatia por onde andou, como é exemplo maior, a forma como se incorporou nas Verbenas no Relvão, dançando e celebrando em verdadeira comunhão com o povo micaelense numa noite, sem dúvida, inesquecível para quem com ele privou.

                Às seis da manhã do dia 27 de Junho, o “Wild Goose” zarpou do Molhe Salazar, com pouca gente a assistir, devido à hora decerto, mas John Wayne, alto e poderoso na cabine do luxuoso iate, fez questão de se despedir destas poucas pessoas, acenando-as como a agradecer toda a cortesia que lhe foi dispensada. E como ele a mereceu, provando que as verdadeiras estrelas não precisam de se munir da arrogância para brilharem.


António Furtado da Rosa


quarta-feira, 12 de agosto de 2009

ELE AÍ ESTÁ



Já tive o privilégio de ver e rever centenas de westerns spaghettis e pensava que já nada me surpreenderia, mas enganei-me, felizmente...
Estávamos em 1971 e o Western Spaghetti já perdera algum do seu fulgor, no entanto, Aldo Florio realizou uma pequena obra-prima para nos deliciar...
ELE AÍ ESTÁ! cujo título original é ANDA MUCHACHO, SPARA! (o título inglês é DEAD MEN RIDE) inspira-se claramente em POR UM PUNHADO DE DÓLARES de Sergio Leone, algumas das cenas são muito idênticas e até tem José Calvo a interpretar o velho mineiro Joselito, uma espécie Silvanito no filme de Leone,que o próprio também interpretou, mas isso não significa que seja uma sequela ou uma cópia, nada disso, o personagem principal interpretado por Fabio Testi, ao seu melhor nível e possivelmente o seu melhor western, de início tem algumas semelhanças com o personagem de Eastwood, o anti-herói cínico e ganancioso, mas ao longo do filme vai-se transformando e acaba por ser um verdadeiro herói quando limpa a cidade do bando que atormenta e subjuga os pobres mineiros. O bando é liderado por Redfield (Eduardo Fajardo) e mais dois lugares-tenente, que além do mais, mantêm em cativeiro a bonita Jessica (Charo López) como uma espécie de escrava sexual dos três meliantes.

Não querendo adiantar muito mais sobre o enredo do filme apenas gostaria de salientar a excelente partitura musical de Bruno Nicolai e as excelentes cenas de acção típicas do género num excelente filme a todos o níveis e que recomendo vivamente a todos os admiradores do género e a todos aqueles que gostam de um bom filme de aventuras violento e cheio de acção com um bom argumento, boa música, um herói lacónico e rápido no gatilho e uma donzela em perigo sujeita aos caprichos dos seus captores.

Recomendo também o excelente DVD da Koch Media com uma belíssima imagem em 2.35.1 anamórfico, com audio em italiano e alemão e com legendas em inglês e alemão que podem encontrar no http://www.amazon.de/ com o título alemão KNIE NIEDER UND FRISS STAUB.







sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

INTRODUÇÃO AO WESTERN SPAGHETTI

"O Tesouro do Lago da Prata"
de Harald Reinl - 1962
Entre 1960 e 1975, foram produzidos na Europa cerca de 600 westerns que foram severamente criticados ou votados ao ostracismo pela crítica de então e por serem financiados maioritariamente por companhias italianas foram baptizados como SPAGHETTI WESTERN, de início pejorativamente, no entanto os admiradores do género adoptaram a terminologia e usam-na carinhosamente até hoje para identificar qualquer western produzido por companhias europeias.

A partir de 1960 a produção de westerns nos Estados Unidos estagnou por imposição do próprio mercado e devido a problemas de distribuição que eram muito difíceis de obter na Europa e em resultado disso os produtores europeus começaram a produzir os seus próprios westerns, principalmente filmes do Zorro e pobres imitações dos Westerns-B americanos mal dobradas em inglês. A única excepção foi Savage Guns ou Tierra Brutal de 1961, realizado por Michael Carreras com Richard Basehart e Alex Nicol e que provou que era possível, com os meios certos, produzir um western com alguma qualidade em solo estrangeiro, mas foi sol de pouca dura...

No entanto, em 1962, o produtor alemão Horst Wendlandt e o realizador Harald Reinl juntaram-se para fazer O Tesouro do Lago de Prata, com o título original Der schatz im Silbersee, baseado numa das histórias do escritor de westerns alemão Karl May. Filmado na antiga Jugoslávia, tinha como protagonistas o actor americano Lex Barker e o francês Pierre Brice e foi um estrondoso êxito e extremamente popular em toda a Europa, inclusive em Portugal. Este êxito monumental animou os produtores europeus que produziram cerca de duas dúzias de westerns alemães, espanhóis e italianos, mas na sua maioria eram de fraca qualidade e estilisticamente não traziam nada de novo ao género, a única excepção deste período foi Duello nel Texas aka Gunfight at Red Sands de 1963 com o actor americano Richard Harrison, que protagonizou 17 spaghetti westerns, e realizado por Ricardo Blasco, o filme foi distribuído em Portugal com o título Gringo.

Foi então, que um desconhecido realizador chamado Sérgio Leone recebeu 200 000 dólares para fazer um western com um argumento baseado no épico de samurais Yojimbo de Akira Kurosawa e entra em cena um actor de televisão completamente desconhecido na Europa, Clint Eastwood, cujo papel de Homem sem Nome, seria a rampa de lançamento para uma carreira a todos os níveis brilhantes, como actor e como realizador. Ao filme juntaram-se o compositor italiano Ennio Morricone e o operador de câmara Massimo Dallamano e Leone fez o que era suposto ser mais um filme para passar despercebido como tantos outros, mas este filme violento, cínico e visualmente admirável, apresenta-nos o Homem sem Nome, um pistoleiro anti-herói cuja principal motivação é o dinheiro e os vilões são meros obstáculos a remover para o conseguir.
O filme foi severamente criticado pela crítica devido à violência retratada e por transmitir uma imagem pouco romântica do western, no entanto as audiências adoraram-no e POR UM PUNHADO DE DÓLARES lançou o género e o western nunca mais seria o mesmo....
© 1998 by John Nudge, originally published by imagesjournal.com
Thank you, John




quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

BEM-VINDOS AO WESTERN EUROPEU

"Por Um Punhado de Dólares"
de Sergio Leone - 1964

Com este blogue pretendo apenas falar um pouco de um género que fez as delícias das gerações dos anos 60, 70 e inícios de 80 e que teve o seu início em 1964 quando Sérgio Leone realizou um western de pequeno orçamento que revolucionou o western , chamava-se o filme POR UM PUNHADO DE DÓLARES aka PER UN PUGNI DI DOLLARI e que foi o arranque para uma carreira extraordinária como actor e mais tarde realizador de um grande senhor da 7ª arte: Clint Eastwood.
Periodicamente, vou tentar, pelo menos uma vez por semana, comentar e dar a conhecer alguns destes filmes da vasta colecção que possuo e apresentar um trabalho introdutório ao género que fiz há algum tempo e para já deixo-vos com um pequeno filme que montei há alguns anos atrás e que apresenta alguns dos actores mais importantes do género: