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domingo, 25 de maio de 2014
sábado, 9 de fevereiro de 2013
A MAGIA DE RINGO - O GRANDE CINEMA DAS PEQUENAS COMUNIDADES
de
António Furtado da
Rosa
Numa noite agreste
de janeiro, o vento gélido fustigava, inclemente, os rostos curtidos e
enrugados dos dois velhos pescadores. Todavia, esse facto não os demovia, e
dirigiam-se ao Cine Teatro Açor para assistirem a mais uma “fita”, como diziam,
algo que faziam frequentemente e quase religiosamente. Há muito que o Ti Manuel
e o Ti João se tinham rendido à fantasia do Cinema, aos seus heróis e aos seus
vilões, aos seus dramas e às suas comédias, aos seus encantos e aos seus
desencantos. O Cinema para eles era, sobretudo, um escape às duras fainas numa
luta contínua contra o Atlântico, por vezes benevolente e generoso, mas muitas
vezes duro e implacável.
Depois de comprarem
o bilhete, sentaram-se sensivelmente a meio da plateia e ajustaram-se, o melhor
que eles puderam, nas cadeiras de madeira. À sua volta, os mais jovens
esperavam com notória agitação o início do filme, pois tratava-se do último
filme de “Gringo”, assim era conhecido a estrela do western italiano Giuliano
Gemma, ator que levava jovens e menos jovens em catadupa às salas de cinema
pelo mundo fora. O Velho Manuel, que tal como o seu velho amigo João, não sabia
ler, já tinha visto os cartazes e reconhecido o herói da “fita”, mas não sabia
o título.
- Sabes o nome do
filme, João?
- Não. – Respondeu
o João.
João virou-se para
a fila de trás e perguntou a um jovem que roía uma fava torrada com
determinação:
- Ó rapaz, como se
chama o filme?
- O “Regresso de
Ringo”. – Respondeu o rapaz rapidamente com a fava quase a saltar-lhe da boca.
Subitamente
ouviu-se uma campainha e algumas luzes apagaram-se, a excitação aumentou, ia
dar-se início à magia…
Terminado o
genérico inicial, Gemma (Ringo) aparece no ecrã, e logo se deu a primeira
explosão de alegria a compasso de algumas palmas…
- Ele está louro
desta vez. - Murmurou o Manuel
- Não faz mal. Logo
que ele dê umas punhadas…
Poucos minutos
depois Ringo disparava e matava dois mexicanos com ar suspeito, para gáudio da
plateia.
- Começa bem. –
Comentou o João.
Os minutos passavam
enquanto Manuel e João, incapazes de lerem as legendas, tentavam perceber o
enredo entre lutas e tiroteios. Os bons e os maus já estavam bem identificados.
O filme era um western italiano vagamente baseado na “Odisseia” de Homero. Ringo
era uma espécie de Ulisses e quando regressa da Guerra da Secessão, encontra a
sua mulher, Hally (Penélope), subjugada ao domínio de Paco Fuentes, o chefe dos
bandidos. Manuel, tentando perceber o enredo lá perguntou ao amigo:
- Afinal, a sujeita
é irmã dele ou a mulher?
João encolheu os
ombros e redarguiu:
- Acho que é a
mulher.
- O sujeito meteu-se
com a mulher do outro? Isso não é pecado? Grande pulha.
- Só se o marido
descobre.
| Cine Teatro Açor (Vila de Capelas) |
- João, sabes o que
eu fazia àquele bandido?
- O quê?
- Arrancava-lhe as
bolas com um arpão!
- E era bem feito.
Mas já não podes com um arpão, homem, já mal podes com um facão de matar
porcos. Um arpão… tu tens cada uma…
- Ainda sou muito
homem!
- Ainda bem. És
feio como um bode, se fosses mulher era de fugir.
As filas mais
próximas, à frente e atrás, reclamaram ruidosamente e os dois velhos lá se
calaram.
A magia continuou, seguindo as peripécias do herói. Às tantas Ringo é
sepultado, com honras militares e tudo, graças a um plano malévolo arquitetado
pelo vilão para poder casar com a mulher de Ringo.
- Manuel, quem foi
que morreu, afinal?
- Sei lá. Espera
aí.
João virou-se
novamente para o rapaz da fila de trás, que continuava a roer uma fava.
- Quem foi que
morreu?
- Ti João, eu penso
que foi… eu não sei.
- Não sabes? Não
sabes ler?
- Pouco. Nunca
atinei na escola. Tenho a cabeça mais dura que uma pedra.
- Bom, há de se
ver.
Entretanto, alguém,
junto ao roedor de favas, fez-se ouvir:
- É o gringo que
está a ser enterrado.
- O quê? – Sobressaltou-se
o velho João – Pensas que sou tolo, rapaz? Ele está ali e ao mesmo tempo está a
ser enterrado? Outro que não sabe ler.
Entretanto voltaram
os protestos a pedir silêncio enquanto o roedor de favas quase sufocava,
engolira a fava quase inteira. Nada que umas valentes pancadas nas costas do
vizinho do lado não resolveram rapidamente. A fava saltou que nem um bólide da
boca do desgraçado. Mas não desistiu, prontamente tirou mais uma fava do saco,
descascou-a e atirou-a para dentro da boca com o olhar fixo no ecrã. O filme
continuava e Ringo, por obra e graça do argumento, estava agora no quarto da
filha e é surpreendido pela mulher que acaba por o reconhecer, apesar de disfarçado,
ao som de uma bela melodia do maestro Ennio Morricone, numa cena plena de
romantismo e drama e filmada com esmero por Duccio Tessari num jogo de sombras
fabuloso. Se calhar, gostou tanto desta cena que acabou por casar com Lorella
de Luca, a atriz que interpreta Hally. Até os corações dos dois velhos pescadores
vacilaram. O silêncio era profundo. A empatia entre o herói e os espetadores era
agora mais forte do que nunca. Mas ainda faltavam alguns minutos. Ringo
contra-ataca e lutando com denodo, reconquista tudo o que lhe pertencia para
satisfação geral. Os maus foram punidos e os bons recompensados. As Luzes
acenderam-se, debaixo de aplausos. Era assim vivido e celebrado o cinema nos
anos 70 do século passado, no cinema da minha terra. Nos cinemas de tantas
terras e de tantas gentes longe dos grandes centros urbanos e elitistas. No fundo,
a maioria de nós tem um “Cinema Paraíso” como recordação, o meu chama-se Cine
Teatro Açor na Vila que me viu nascer: Vila de Capelas.

O Ti Manuel e o Ti
João saíram do cinema em silêncio a caminho de casa, em contraste com os mais
jovens que ainda vibravam com as peripécias do filme, para eles, a magia seria
substituída pelas agruras da vida real, uma vida dura. Mas durante algum tempo,
sentiram-se heróis de uma história que também fora deles…
Trailer:
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segunda-feira, 1 de outubro de 2012
GiULIANO GEMMA - O GRINGO QUE NÃO PERDOA
Longe das Parangonas das revistas da especialidade, visto até como cinema menor por determinada crítica que nunca entendeu a essência real do Cinema Popular, este gerou nos anos 1960 uma estrela que todos aqueles da minha geração que deambulavam pelos cinemas nas décadas de 70 e 80 do século passado, reconhecem prontamente: Giuliano Gemma, também conhecido como Montgomery Wood, em apenas dois filmes e a contragosto, Ringo ou simplesmente Gringo.
Nascido em Roma a 2 de Setembro de 1938, completou recentemente 74 anos, cresceu contudo em Reggio Emilia no norte de Itália. Giuliano iniciou-se no cinema como duplo e conseguiu o seu primeiro grande papel em 1962 pela mão de Duccio Tessari em "Arrivano I Titani". Depois de alguns filmes de aventuras que o tornaram conhecido ao lado de Richard Harrison, “O Lobo Vermelho” e “Os Dois Gladiadores” e Mark Forest, “Hércules contra os Filhos do Sol” e o ”Os Libertadores”, em 1965 Duccio Tessari chama-o para protagonizar dois westerns que seriam um imenso êxito, e que o levariam ao estrelato: “Uma Pistola Para Ringo” e o “O Regresso de Ringo”, tornando-o uma das faces mais conhecidas do género, protagonizando êxitos consecutivos como “Um Dólar Furado”, “Adeus Gringo”, “Arizona Colt”, “Os Longos Dias da Vingança” ou “Gigantes em Duelo” onde contracena com Lee Van Cleef num dos melhores westerns italianos.
Quando o Western Spaghetti já apresentava claros sinais de decadência, interpretou e abrilhantou dois dos mais belos westerns italianos crepusculares, juntamente com “Keoma” com Franco Nero, “Chamavam-lhe Califórnia” de 1977 e “A Sela de Prata” de 1978 e em 1985 foi o rosto do famoso personagem da banda Desenhada Tex Willer, criado por Giovanni Luigi Bonelli, no filme “Tex, o Pistoleiro”.
Ouçamos Giuliano Gemma na primeira pessoa, numa entrevista incluída no lançamento do DVD “Day of Anger” (Gigantes em Duelo) e que aqui apresentamos, legendada em português, com a devida e amável autorização de Eric Maché e Ally Lamaj da Wild East Productions.
© Copyright Wild East Productions
I would like to thank Eric Maché and Ally Lamaj, from
Wild East Productions, for allowing the publication of this interview
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